“Equilibrivm“, de Anitta, não chega como um álbum qualquer dentro de uma discografia já marcada por reinvenções. Ele se impõe como um manifesto artístico que encara o próprio caos para organizar uma nova identidade. Logo nos primeiros segundos, fica evidente que existe um projeto pensado com precisão cirúrgica, onde estética, conceito e som caminham na mesma direção.

O disco funciona como um espelho quebrado que, ao ser remontado, forma uma imagem mais complexa e honesta da artista. Dividido em dois atos, o trabalho constrói um jogo de forças quase simbólico. De um lado, um mergulho profundo nas raízes brasileiras, com texturas que evocam samba, reggae e espiritualidade de matriz africana. Do outro, uma expansão calculada para o mercado global, com versões em espanhol e inglês que dialogam diretamente com o pop internacional.
A abertura com “Desgraça” já estabelece o tom. Existe uma estética que flerta com o retrô, quase como se Carmen Miranda atravessasse o século para encontrar batidas contemporâneas. Em “Mandinga”, a presença de Marina Sena transforma a faixa em um encontro que soa ritualístico, impulsionado pelo uso de referências como “Canto de Ossanha”. Aqui, música deixa de ser apenas estrutura sonora e passa a operar como linguagem simbólica.
O primeiro ato cresce sustentado por colaborações que fazem sentido dentro da narrativa. Liniker em “Caminhador” e Os Garotin em “Caso de Amor” não aparecem como adornos comerciais, mas como extensões naturais da proposta. O mesmo acontece com “Deus Existe”, onde a parceria com Ponto de Equilíbrio reforça o diálogo com o reggae e amplia o campo espiritual do disco.
Quando o álbum se aproxima da Bahia, ele encontra um de seus momentos mais vivos. “Bemba”, com Luedji Luna, transforma referências culturais em experiência sensorial. Já “Ternura”, com Melly, desliza com delicadeza, evocando imagens líquidas e uma atmosfera que remete à força de Oxum. Existe uma suavidade calculada nessas faixas, como se o álbum respirasse antes de avançar para territórios mais intensos.
A virada acontece em “Nanã”. A partir dali, “Equilibrivm” entra em uma nova frequência. O eletrônico se mistura com elementos espirituais e abre caminho para a sequência mais pulsante do disco. “Choka Choka” e “Meia Noite” não funcionam só como hits em potencial. Elas carregam uma energia quase ritualística, onde o funk se funde com referências religiosas de forma potente e nada superficial. É nesse ponto que o álbum encontra seu eixo central: o equilíbrio entre corpo e espírito.
No encerramento, “Ouro” surge como um mantra, conduzindo o ouvinte para uma espécie de estado contemplativo. A participação de Emanazul reforça essa sensação de fechamento simbólico, como se o disco completasse um ciclo interno.
A produção é um dos pilares mais sólidos do projeto. Cada escolha sonora parece milimetricamente pensada para sustentar o conceito. Nada soa deslocado. Nada parece feito por impulso. Existe uma curadoria que transforma o álbum em uma experiência contínua, onde cada faixa conversa com a anterior e prepara o terreno para a próxima.
Outro ponto que se destaca é a forma como a espiritualidade é incorporada. Não surge como estética vazia ou tendência oportunista. Funciona como elemento narrativo central, dando densidade ao trabalho e ampliando seu impacto. Essa camada simbólica eleva o álbum para além do pop convencional.
“Equilibrivm” também evidencia um momento de maturidade artística. As letras transitam por emoções diversas sem perder coerência. Amor, dor, desejo e introspecção aparecem organizados dentro de uma proposta maior. O disco entende suas próprias contradições e transforma isso em força criativa.
Dentro da trajetória de Anitta, este projeto se posiciona como um ponto de virada. Um trabalho que abandona a necessidade de provar algo e passa a afirmar uma identidade com mais segurança. É um álbum que não busca equilíbrio como ausência de conflito, mas como convivência entre extremos.
“Equilibrivm” termina deixando a sensação de que cada detalhe foi pensado para existir exatamente onde está. E isso, em um cenário onde o excesso costuma diluir ideias, faz toda a diferença.
Nota final: 100/100
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