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Crítica: BTS, “Arirang”

Texto: Ygor Monroe
27 de março de 2026
em Música, Resenhas/Críticas

“Arirang”, novo capítulo do BTS, chega com o peso simbólico de um reencontro que vai muito além da música. Depois de anos fragmentados por projetos solo e pelo inevitável serviço militar, o grupo retorna com um disco que carrega expectativa, memória e uma tentativa clara de reposicionamento artístico. Mais do que um comeback, trata-se de um teste de identidade.

Crítica: BTS, "Arirang"
Crítica: BTS, “Arirang”

Inspirado na tradicional canção folclórica coreana que dá nome ao álbum, “Arirang” constrói sua narrativa em torno de sentimentos universais como separação, saudade e reconexão. Esse conceito não fica restrito ao discurso. Ele atravessa a sonoridade e se infiltra nas escolhas criativas, que apontam para um BTS mais interessado em expandir linguagem do que em repetir fórmulas que já garantiram sucesso global.

Logo nos primeiros minutos, “Body to Body” estabelece o tom. A faixa funciona como um convite e, ao mesmo tempo, como uma declaração de intenções. Existe uma atmosfera de reconstrução coletiva, como se cada integrante estivesse reaprendendo a ocupar o mesmo espaço criativo. A produção, sofisticada e carregada de textura, dialoga diretamente com a fase mais introspectiva de “Right Place, Wrong Person”, projeto solo de RM, criando uma ponte emocional entre o passado recente e o presente do grupo.

Ao longo das 14 faixas, o álbum se movimenta com liberdade entre o hip hop, o pop alternativo e elementos eletrônicos, com contribuições de nomes como Ryan Tedder, Kevin Parker e JPEGMafia. O resultado é um trabalho que flerta com o mercado ocidental de forma mais explícita do que em lançamentos anteriores. Ainda assim, a essência coreana permanece como fio condutor. O BTS entende que crescer globalmente não exige apagar suas raízes, mas reinterpretá-las.

Momentos específicos elevam o disco. “Like Animals” entrega um dos trechos mais marcantes, com uma guitarra no encerramento que amplia a intensidade emocional da faixa e se transforma em um dos grandes destaques do projeto. Já “they don’t know ’bout us” surpreende ao incorporar referências sutis dos anos 60, criando uma estética que mistura nostalgia e contemporaneidade com naturalidade.

A unidade do grupo também se reflete na dinâmica vocal. A linha de rap, formada por RM, Suga e J-Hope, assume protagonismo em diversos momentos, trazendo densidade e personalidade. Os vocais, por sua vez, aparecem de forma mais contida, mas ainda eficientes em sustentar a proposta melódica do álbum. O equilíbrio entre essas forças nunca foi tão calculado, ainda que nem sempre perfeito.

“Arirang” também se arrisca em territórios menos confortáveis. Algumas faixas apostam em experimentações que podem soar irregulares, especialmente quando combinadas com letras em inglês que nem sempre acompanham a sofisticação instrumental. Esse contraste evidencia um dilema recorrente no K-pop contemporâneo, onde a busca por alcance global, às vezes, entra em conflito com autenticidade.

Ainda assim, o saldo é positivo. O álbum não se prende a uma única emoção, e é justamente nessa fluidez que encontra sua força. Existe uma sensação constante de movimento, como se cada faixa representasse uma tentativa de traduzir diferentes versões de quem o BTS se tornou ao longo dos anos.

No encerramento, o disco encontra um tom mais contemplativo e quase nostálgico, remetendo a estruturas melódicas que lembram o pop ocidental dos anos 2010. Funciona como um fechamento coerente para um projeto que, desde o início, se propõe a revisitar trajetórias e projetar futuros possíveis.

“Arirang” não é um álbum perfeito, nem parece querer ser. É um trabalho de transição, de reafirmação e, acima de tudo, de coragem artística. Em um cenário onde repetir fórmulas seria o caminho mais seguro, o BTS opta por se arriscar. E, nesse processo, entrega um disco que talvez não agrade a todos, mas que dificilmente passa despercebido.

Nota final: 79/100

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