Quando o terror abandona os corredores de uma casa mal-assombrada para ocupar o espaço apertado de uma van em movimento, a promessa é de claustrofobia, tensão constante e uma sensação inevitável de que escapar talvez nunca tenha sido uma possibilidade. É exatamente essa premissa que move “Passageiro do Mal”, filme dirigido por André Øvredal que tenta transformar a liberdade idealizada da vida na estrada em um pesadelo sobrenatural de combustível curto e fôlego irregular.

A proposta, à primeira vista, é sedutora. Um casal decide deixar para trás a previsibilidade urbana, vender o apartamento em Nova York e abraçar a estética nômade que tantas vezes parece romantizada nas redes sociais. A estrada surge como símbolo de reinvenção, de desapego e de descoberta. Tudo parece apontar para um recomeço até que uma parada inesperada para ajudar em um acidente muda completamente a direção da viagem. A partir desse momento, uma entidade obscura passa a acompanhá-los, instalada como uma presença invisível e insistente dentro do próprio veículo.
A ideia de transformar uma van em uma casa assombrada sobre rodas é, sem dúvida, o maior acerto do filme. Existe algo profundamente desconfortável em perceber que o único lugar que deveria oferecer abrigo se torna também a fonte do medo. André Øvredal, cineasta que já demonstrou habilidade em construir atmosferas inquietantes, entende esse potencial e consegue criar, em alguns momentos, uma tensão genuína. O espaço reduzido, os reflexos nos vidros durante a noite, o silêncio interrompido por ruídos inexplicáveis e a impossibilidade de simplesmente abandonar tudo no meio da estrada ajudam a alimentar uma sensação constante de vulnerabilidade.
O longa também flerta com elementos de folclore e lendas urbanas ligadas à estrada, especialmente aquelas histórias sobre figuras misteriosas que surgem à beira do caminho e se tornam acompanhantes involuntários de motoristas desavisados. Esse componente acrescenta uma camada interessante ao terror, quase como uma atualização moderna das narrativas sobre caronas sobrenaturais que atravessam décadas e culturas.
O problema surge quando a execução começa a depender demais do susto imediato e cada vez menos da construção de uma ameaça realmente perturbadora. Os primeiros minutos entregam uma sequência eficaz, talvez a mais memorável de toda a experiência. O impacto inicial funciona. O desconforto se instala. A expectativa cresce. Só que, aos poucos, o roteiro parece girar em círculos. A entidade manipula imagens, altera registros da câmera da van, provoca alucinações e embaralha a percepção dos protagonistas, mas a repetição dessas estratégias acaba esvaziando sua força.
O terror se apoia excessivamente em jump scares, muitos deles previsíveis, organizados quase como uma fórmula automática. O susto vem, o silêncio retorna, outro susto aparece. O que poderia ser uma escalada psicológica se transforma em uma sucessão mecânica de interrupções sonoras e visuais. Também pesa contra o filme a fragilidade das decisões tomadas pelos personagens.
O medo perde parte do impacto quando quem está em perigo parece colaborar com ele. As escolhas do casal frequentemente desafiam qualquer lógica de autopreservação. Depois de experiências claramente traumáticas, insistem em permanecer isolados, ignoram avisos explícitos e agem como se o roteiro precisasse constantemente empurrá-los de volta ao perigo. Esse comportamento enfraquece a empatia e torna difícil embarcar completamente na angústia que o filme tenta provocar.
Jacob Scipio e Lou Llobell conseguem sustentar uma química convincente e oferecem atuações competentes dentro das limitações do material. Melissa Leo, mesmo com presença menor, adiciona peso dramático sempre que aparece. Ainda assim, nenhum dos intérpretes consegue compensar totalmente a falta de inventividade narrativa que domina a segunda metade do longa.
André Øvredal demonstra domínio visual e sabe exatamente como filmar a escuridão sem transformá-la em confusão. A ambientação funciona. O desenho de som ajuda. Certos enquadramentos reforçam a sensação de aprisionamento. Tudo isso contribui para que “Passageiro do Mal” permaneça interessante mesmo quando a história começa a perder direção.
Talvez o aspecto mais curioso do filme esteja justamente em sua leitura involuntária sobre o mito contemporâneo da liberdade absoluta. A ideia de abandonar tudo e viver na estrada costuma carregar promessas de autonomia e paz. Aqui, esse sonho vira armadilha. O veículo que simboliza independência se converte em cela. A estrada aberta deixa de representar possibilidade e passa a significar perseguição.
Essa inversão é inteligente, mas merecia um roteiro mais ousado para sustentá-la até o fim. Ao final, “Passageiro do Mal” entrega alguns momentos genuinamente inquietantes e uma premissa forte o suficiente para despertar interesse, mas parece incapaz de explorar todo o potencial que carrega. O terror funciona em flashes. A atmosfera convence. A ideia permanece intrigante. Só que falta profundidade para transformar essa viagem em algo realmente memorável.
O que poderia ser uma experiência sufocante e inovadora acaba se tornando um percurso irregular, mais próximo de uma estrada cheia de desvios do que de uma rota certeira rumo ao horror.
“Passageiro do Mal”
Direção: André Øvredal
Elenco: Jacob Scipio, Lou Llobell, Melissa Leo
Disponível em: cinemas brasileiros
Fique por dentro das novidades das maiores marcas do mundo! Acesse nosso site Marca Pop e descubra as tendências em primeira mão.






