Certos personagens carregam uma presença tão intensa que acabam se tornando maiores do que as próprias histórias que protagonizam. O desafio, nesses casos, está em impedir que o fascínio pela figura central engula toda a construção ao redor. Com “La Casa de Papel: Berlim e a Dama com Arminho”, esse equilíbrio parece cada vez mais delicado. O derivado do universo de “La Casa de Papel” mantém intacto o carisma de seu protagonista, preserva a estética sofisticada que transformou a franquia em fenômeno global, mas começa a dar sinais claros de desgaste ao insistir em fórmulas que já não provocam o mesmo impacto.

Pedro Alonso continua sendo o grande motor da série. Berlim permanece magnético, teatral e irresistivelmente provocador, transitando entre genialidade criminosa e narcisismo com uma naturalidade que ainda sustenta boa parte da narrativa. Sua presença domina cada cena, seja em um salão aristocrático, em uma conversa carregada de segundas intenções ou na elaboração meticulosa de mais um golpe impossível. Ainda assim, a produção parece excessivamente dependente dessa força. Quando toda a estrutura repousa sobre um único personagem, qualquer repetição se torna ainda mais perceptível.
Desta vez, a trama abandona Paris e leva o grupo para a Espanha, em meio ao luxo e às aparências impecáveis de Sevilha. O plano inicial envolve o desaparecimento de milhões em joias e a manipulação de uma aristocracia acostumada a esconder seus próprios excessos atrás de títulos e coleções privadas. O centro da missão gira em torno de “A Dama com Arminho”, obra emblemática de Leonardo da Vinci, cuja presença serve como ponto de partida para uma trama que rapidamente se transforma em algo mais pessoal. Quando o duque de Málaga tenta contratar Berlim para realizar um roubo sob encomenda, o que poderia ser apenas mais um trabalho se converte em uma afronta imperdoável. Para alguém que transforma cada crime em espetáculo, aceitar ordens significaria renunciar à própria identidade. O orgulho ferido passa a conduzir cada decisão, e a vingança se torna tão importante quanto o dinheiro.
A premissa continua irresistível no papel. Um grande golpe, uma coleção de arte roubada, jogos de manipulação entre nobres e criminosos e a promessa de mais um elaborado teatro de ilusões. O problema surge na execução. “La Casa de Papel: Berlim e a Dama com Arminho” conhece tão bem sua própria fórmula que parece incapaz de escapar dela. Cada engrenagem já parece antecipada. A montagem da equipe, os conflitos internos, as provocações românticas e os discursos sobre amor como força transformadora surgem exatamente onde se espera que estejam, sem oferecer desvios realmente surpreendentes.
Bruce, Keila, Roi e Cameron retornam para reforçar a dinâmica coletiva, trazendo consigo relações estremecidas, ressentimentos e tentativas de reconstrução emocional. Ainda existe química entre eles, mas parte dessa energia parece automatizada. Os conflitos pessoais aparecem quase como etapas obrigatórias do roteiro, preenchendo espaços que antes pareciam mais espontâneos. Falta urgência, falta imprevisibilidade e, em alguns momentos, falta até mesmo risco real.
A principal novidade surge com Candela, interpretada por Inma Cuesta. Sua chegada devolve parte da instabilidade que a série tanto necessita. Impulsiva, intensa e tão imprevisível quanto Berlim, ela rapidamente se estabelece como uma presença capaz de desafiar o protagonista em vez de simplesmente admirar seu brilho. Sua personalidade atravessa a narrativa com energia suficiente para provocar rachaduras em uma estrutura que começava a parecer excessivamente confortável. Candela funciona porque interrompe a sensação de controle absoluto que domina a série.
Mesmo com esse frescor, a produção insiste em repetir um padrão que já demonstra sinais de desgaste. Berlim continua verbalizando sua visão grandiosa sobre amor, desejo e destino com a mesma eloquência de sempre, mas o impacto dessas falas já não possui a mesma força. O que antes soava como assinatura narrativa agora flerta com a autoparódia. O personagem permanece fascinante, mas a série parece determinada a transformá lo em mito permanente, reduzindo parte das contradições que o tornavam verdadeiramente interessante.
Visualmente, pouco pode ser questionado. A fotografia segue impecável, explorando o luxo europeu com precisão quase obsessiva. Cada cenário, cada figurino, cada detalhe arquitetônico contribui para reforçar a fantasia elegante que a franquia construiu ao longo dos anos. Existe uma beleza quase calculada em cada enquadramento, como se a própria estética funcionasse como extensão do narcisismo de Berlim. Tudo reluz, tudo impressiona, mas beleza sozinha nunca sustenta tensão dramática.
Damián, interpretado por Tristán Ulloa, acaba oferecendo alguns dos momentos mais humanos da temporada justamente por representar a dúvida dentro de um universo dominado pela certeza. Seu desconforto diante das escolhas de Berlim cria pequenas fissuras emocionais que ajudam a devolver densidade à trama. Sua hesitação lembra que, por trás do glamour e da teatralidade, ainda deveria existir algum peso nas consequências.
Esse talvez seja o principal impasse da série. O universo de “Berlim” continua extremamente eficiente como entretenimento. O ritmo permanece ágil, os diálogos seguem afiados e a atmosfera de conspiração continua funcionando como convite irresistível para mais um episódio. Mas também cresce a sensação de que a produção gira em torno de si mesma, revisitando movimentos já conhecidos sem oferecer uma expansão real para o personagem ou para sua mitologia.
“La Casa de Papel: Berlim e a Dama com Arminho” continua elegante, sedutora e capaz de prender a atenção com facilidade. Ainda assim, deixa a impressão de que seu protagonista, tão obcecado por grandes feitos, talvez esteja preso dentro de um assalto mais difícil do que qualquer outro. O desafio agora parece ser escapar da própria fórmula antes que o encanto se transforme definitivamente em repetição.
“La Casa de Papel: Berlim e a Dama com Arminho”
Criação: Álex Pina, Esther Martínez Lobato
Elenco: Pedro Alonso, Michelle Jenner, Tristán Ulloa, Inma Cuesta, Begoña Vargas, Julio Peña
Disponível em: Netflix
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