Quando uma série tenta transformar luto, fé e recomeço em um retrato delicado da vida cotidiana, o mínimo esperado é alguma honestidade emocional. “Não É Bem Assim”, produção da Amazon Prime Video, até parece mirar nessa direção, mas se perde em um percurso tão calculado e artificial que o drama acaba soando como um sermão cuidadosamente embalado para parecer entretenimento leve. O que poderia ser uma narrativa sobre fragilidade humana vira um exercício de conforto televisivo sem qualquer risco, sem tensão verdadeira e, principalmente, sem coragem de encarar os próprios conflitos que apresenta.

A premissa sugere peso. Malcolm Jeffries, pastor viúvo, tenta reorganizar a vida ao lado dos três filhos após a morte da esposa. Do outro lado da rua, Lori Soto também enfrenta os destroços de um casamento recém-encerrado enquanto cria seus dois filhos. Unidos pela amizade, pela dor compartilhada e pela ausência que ambos carregam, os dois começam a perceber que a proximidade emocional talvez caminhe para outro território. Um terreno que a série anuncia como delicado, mas que jamais consegue explorar com profundidade.
O maior problema de “Não É Bem Assim” está justamente em sua incapacidade de provocar qualquer sentimento verdadeiro. Tudo parece excessivamente higienizado. A dor existe, mas nunca machuca de fato. O sofrimento é citado, mas raramente sentido. O luto, que deveria funcionar como pulsação dramática, vira um pano de fundo decorativo. Como uma fotografia de família cuidadosamente posicionada na sala para lembrar que alguém partiu, mas sem permitir que a ausência altere a temperatura do ambiente.
Existe algo quase publicitário em cada cena. Casas impecáveis, diálogos cuidadosamente limpos, conflitos que surgem já domesticados. Até os momentos que deveriam carregar algum desconforto emocional parecem ter sido desenhados para jamais tirar o espectador da zona de segurança.
A proposta parece buscar aquele tipo de acolhimento televisivo associado a produções como “7th Heaven” ou até ecos mais suaves de “Once and Again”, mas falta justamente o elemento que fazia esses dramas funcionarem: vulnerabilidade. Aqui, tudo soa ensaiado demais.
Scott Foley e Erinn Hayes até tentam sustentar a narrativa. Há competência, profissionalismo e alguma química entre os dois. Mas talento nenhum consegue salvar personagens escritos de maneira tão previsível. Malcolm é construído como um protagonista quase intocável, equilibrando espiritualidade, sensibilidade e carisma em doses tão perfeitas que chega a parecer um personagem criado por inteligência artificial a partir de uma lista de atributos positivos.
Lori, por sua vez, carrega potencial para ser a figura mais interessante da trama, uma mulher tentando reconstruir sua identidade depois de perder a melhor amiga e o casamento em um intervalo curto demais. Ainda assim, a série insiste em tratá-la dentro de limites extremamente seguros, como se qualquer camada de complexidade pudesse ameaçar a atmosfera confortável da produção.
O resultado é um drama que evita qualquer atrito real, como se tivesse medo da própria tristeza. Até os conflitos dos adolescentes seguem uma cartilha excessivamente previsível. Distanciamentos entre amigas, inseguranças escolares, pequenas rebeldias. Questões legítimas, mas apresentadas de forma tão superficial que mal deixam marcas. Nenhuma dessas dores encontra espaço para respirar.
A fé, elemento central da identidade da série, poderia oferecer reflexões potentes sobre perda, dúvida e reconstrução. Mas também acaba tratada com uma delicadeza quase protocolar. Nada desafia. Nada confronta. Nada tensiona.
Em vez de explorar como a espiritualidade pode vacilar diante da tragédia, “Não É Bem Assim” prefere seguir oferecendo respostas fáceis para perguntas difíceis. Como se bastasse um abraço, uma conversa no carro ou um olhar silencioso para reorganizar um mundo devastado. Talvez esse seja o ponto mais frustrante. A série parece incapaz de compreender que dor verdadeira raramente se resolve em gestos pequenos e trilhas suaves.
Visualmente elegante e emocionalmente anestesiada, a produção se transforma em uma experiência morna. Um drama de superfície que fala sobre perda sem entender suas rachaduras.
Nem toda história precisa ser brutal para ser impactante. Mas toda história sobre luto precisa, ao menos, ter coragem de olhar para o vazio. “Não É Bem Assim” prefere desviar os olhos. Ao tentar agradar todos os públicos, especialmente aqueles em busca de conforto e leveza, a série termina presa em um limbo criativo. Gentil demais para emocionar. Polida demais para surpreender. Segura demais para permanecer na memória.
“Não É Bem Assim”
Direção: Brad Silberling, Pete Sollett, Valerie Weiss, Rosemary Rodriguez
Elenco: Scott Foley, Erinn Hayes, J.R. Ramirez, Caleb Baumann, Cary Christopher, Liv Lindell, Leven Miranda, Cassidy Paul
Disponível em: Amazon Prime Video
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