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Crítica: “Mentirosos” (1ª temporada)

Texto: Ygor Monroe
21 de junho de 2025
em Amazon Prime Video, Resenhas/Críticas, Séries, Streaming

Existe um tipo de narrativa adolescente que tenta vestir a dor com roupas de luxo. “Mentirosos” é exatamente esse tipo de série. Por fora, é tudo elegância, propriedade à beira-mar, famílias aparentemente bem resolvidas e filhos perfeitos. Por dentro, o terreno é podre. O que a produção faz, no fundo, é oferecer um retrato disfarçado do colapso emocional que o privilégio tenta encobrir com tradições e riqueza herdada. Mas ao contrário de tantas outras obras que apenas romantizam a juventude rica em crise, essa série quer confrontar sua própria superfície. E quando consegue, o impacto é real.

Série “Raul Seixas: Eu Sou” mergulha na atemporalidade do ícone

Crítica: "Mentirosos" (1ª temporada)
Crítica: “Mentirosos” (1ª temporada)

Inspirada no livro de E. Lockhart e adaptada com liberdade narrativa para a TV, “Mentirosos” se propõe a explorar não só os vazios da memória da protagonista, mas os vazios morais de uma linhagem inteira. É sobre trauma, sim. Mas também é sobre legado, poder, silêncio e culpa. Cadence, a narradora e fio-condutor da história, é mais que uma adolescente em busca de lembranças: ela é a representação de um colapso anunciado, que já vinha sendo empurrado por gerações e agora finalmente encontra um ponto de ruptura.

A série sabe disso e tenta costurar essa queda com delicadeza poética, ainda que em alguns momentos se perca na própria ambição estética. Existem escolhas visuais que beiram o delírio, e embora sejam coerentes com o estado psicológico da personagem, nem sempre conversam bem com o ritmo do roteiro. São ruídos que distraem mais do que ampliam a experiência.

Mas há acertos importantes. A crítica à elite branca, rica e tradicionalista não é apenas pano de fundo: é o próprio esqueleto da narrativa. A família Sinclair é o retrato de uma aristocracia moderna, orgulhosa, cega e egocêntrica. Eles manipulam, encenam, forçam sorrisos para fotos em jantares no jardim, enquanto carregam segredos enterrados sob camadas de negação. E é aí que “Mentirosos” ganha potência: quando expõe a hipocrisia por trás da fachada da perfeição e questiona até que ponto a imagem vale mais do que a verdade.

Apesar disso, há algo na entrega da revelação final que escorrega. O clímax se constrói com muita expectativa e pouco impacto real. Não porque a verdade seja fraca, mas porque a forma como ela emerge deixa escapar a intensidade que o roteiro vinha prometendo. Em vez de provocar um abalo emocional, o que se vê é um desenlace que informa mais do que comove. Ainda assim, o saldo não é negativo. A frustração do final só é possível porque o caminho até ali tinha, sim, força dramática.

“Mentirosos” é uma série sobre juventudes fragmentadas, sobre como famílias constroem mitologias para se proteger da culpa e sobre como o tempo tem a habilidade cruel de transformar idealismo em tragédia. É uma história que se recusa a oferecer respostas fáceis, porque entende que memórias distorcidas são parte do processo de amadurecimento. Cadence não é só uma adolescente tentando lembrar o que aconteceu. Ela é uma lente quebrada tentando reenquadrar um mundo que já não é confiável.

No fim, “Mentirosos” não quer ser uma simples história de verão que deu errado. O que ela quer é mostrar que há algo profundamente apodrecido no cerne de quem se recusa a mudar. E que às vezes, a verdade que nos destrói é também a única capaz de nos libertar.

Todos os episódios já estão disponíveis no Prime Video. E se você estiver disposto a encarar o vazio que existe por trás da beleza, talvez essa seja uma mentira que vale a pena ouvir.

⭐⭐⭐⭐

Avaliação: 4 de 5.

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