Existe uma linha tênue entre honrar um clássico e se agarrar nele como bóia de salvação. “O Exorcista – O Devoto” não respeita essa linha, tropeça nela e ainda tenta nos convencer de que fez algo grandioso. O que deveria ser uma continuação simbólica de um dos filmes mais importantes da história do terror, vira um espetáculo sem alma, genérico, preso em fórmulas vazias e decisões estéticas que nada acrescentam.
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A tentativa aqui é clara: buscar algum resquício do impacto cultural do original de 1973 e usá-lo como combustível para uma franquia cansada antes mesmo de existir. Mas o que se entrega é um filme que não entende o próprio DNA. Não há construção de atmosfera, não há silêncio incômodo, não há tensão emocional. O que sobra é barulho, edição acelerada e um acúmulo de personagens que atravessam a trama como peças de xadrez jogadas sem estratégia.
A direção de David Gordon Green, que já havia enfrentado críticas com sua versão de “Halloween”, insiste no mesmo erro: confundir reverência com repetição. E se em “Halloween” ainda existia alguma vontade de atualizar a linguagem, aqui o que se vê é um filme que apenas coleciona cenas de possessão como se fossem vinhetas de um compilado da Blumhouse. O terror não assusta, o drama não emociona e a ideia de fé é usada como bengala narrativa, jamais como elemento orgânico.
Tudo parece deslocado. A protagonista mirim não tem tempo de ser personagem antes de virar instrumento do mal. Os pais tentam desempenhar alguma função dramática, mas os diálogos são expositivos demais e a montagem atropela qualquer tentativa de aprofundamento. Até Ellen Burstyn, que retorna como Chris MacNeil, parece estar ali por obrigação contratual. Sua presença não resgata a força do primeiro filme, só evidencia o abismo entre as duas obras.
A maior fraqueza de “O Devoto” é acreditar que basta invocar a palavra “exorcismo” para que a audiência reaja com medo. Mas o horror real do primeiro filme nunca foi só o demônio. Foi o colapso da razão diante do inexplicável. Foi o desespero real da mãe. Foi o silêncio dos corredores do hospital. Foi a dúvida. Esse novo capítulo entrega certezas ruins, sustos previsíveis e um final tão anticlimático que parece zombar do espectador que ficou até os créditos.
Não há profundidade teológica, não há desconstrução simbólica, não há provocação. O que poderia ser uma discussão sobre fé em tempos de ceticismo vira uma coletânea de frases prontas sobre “acreditar em algo maior” ditas por personagens que parecem não acreditar nem no roteiro que estão lendo.
No fim das contas, “O Exorcista – O Devoto” parece ter sido feito por quem viu o original pela metade e achou que o sucesso estava no giro de cabeça e no vômito verde. A experiência aqui não provoca medo, nem reflexão. Provoca tédio. E o pior: uma sensação de perda. Não do mal combatido, mas do cinema que ousava mergulhar no desconhecido com coragem e complexidade.
É triste perceber que a nova encarnação do “Exorcista” não tem alma. E quando falta alma, nem o diabo se interessa.
“O Exorcista – O Devoto“
Direção: David Gordon Green
Elenco: Leslie Odom Jr., Ellen Burstyn, Ann Dowd
Disponível em: Netflix
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