“Ohio State – Uma História de Abusos” não tem qualquer interesse em suavizar o impacto. É um murro seco, dado com frieza e método, que expõe o lado podre de uma das instituições mais respeitadas do sistema universitário americano. E diferente de tantos documentários que se escoram na estética da denúncia para mascarar a superficialidade do conteúdo, este aqui mergulha direto na lama, sem qualquer piedade com a reputação de ninguém.
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O mérito técnico da obra está na forma como o horror é encenado sem teatralidade. Não há manipulação sensacionalista porque os fatos já são, por si, perturbadores o bastante. A direção entende isso. E, em vez de buscar choques gratuitos, opta por montar um quebra-cabeça de silêncios, omissões e cumplicidade institucional, onde cada depoimento se torna mais um tijolo na construção de um sistema de abuso sustentado por décadas.
O que impressiona é a clareza com que o documentário revela o funcionamento interno da impunidade. Não se trata apenas de um predador em série, mas de uma rede de proteção institucionalizada, blindada por políticas de reputação e cifras milionárias. A Universidade Estadual de Ohio não aparece como vítima do escândalo, mas como sua cúmplice direta, responsável por décadas de silêncio, desprezo e conivência.
Tecnicamente, a obra é sóbria, com uma montagem que valoriza o ritmo dos testemunhos, sem pressa, sem cortes excessivos, sem interrupções incômodas. A narrativa avança com peso e propósito, permitindo que o espectador encare cada relato com o desconforto necessário. A fotografia é fria, clínica, acentuando a sensação de distanciamento que tantas dessas vítimas enfrentaram por anos. A trilha é quase imperceptível, o que torna tudo ainda mais árido.
Outro acerto da produção está em não romantizar o heroísmo das vítimas, mas posicioná-las como sobreviventes ativos, que lutam contra o sistema que os traiu e continua tentando apagá-los. É um grito contido, mas feroz. Um lembrete de que a masculinidade tradicional, especialmente dentro do esporte universitário americano, ainda é um terreno fértil para abusos, silêncios e humilhações.
O documentário acerta também ao escancarar o uso perverso da lei como ferramenta de silenciamento. A tal “prescrição” jurídica é tratada com o desprezo merecido, apresentada como o que é: um escudo covarde para quem quer escapar da responsabilização depois de décadas de omissão. A forma como isso é explorado na montagem, quase como um capítulo à parte, reforça o subtexto maior: a justiça, muitas vezes, não serve à verdade, mas à manutenção do status quo.
No fim, “Ohio State – Uma História de Abusos” não é só um documentário sobre um escândalo universitário. É um estudo meticuloso sobre o poder, o descaso e o tipo de cultura institucional que prefere proteger seu nome do que preservar a dignidade de seus próprios alunos. E isso, mais do que qualquer falha moral individual, é o que realmente revolta.
Dói assistir. Dói reconhecer que esse tipo de estrutura ainda sustenta tantas instituições que admiramos. E talvez esse seja o maior mérito da obra: ela não busca consolo, busca exposição. E consegue.
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