Certas comédias escolhem provocar riso para aliviar tensões. Outras preferem fazer do desconforto sua principal ferramenta, transformando gargalhadas em pequenos espelhos incômodos. “Primeiro as Damas” pertence claramente ao segundo grupo. Sob a aparência de uma sátira leve sobre inversão de papéis, o longa dirigido por Thea Sharrock constrói uma experiência que diverte enquanto desmonta, camada por camada, privilégios tão naturalizados que costumam passar despercebidos.

No centro dessa dinâmica está Damien Sachs, interpretado por Sacha Baron Cohen com a dose exata de arrogância performática que o papel exige. Rico, influente, acostumado a circular pelo mundo com a certeza de que tudo foi desenhado para favorecê lo, ele representa um tipo masculino que o cinema conhece bem. O executivo confiante, sedutor, autoritário, incapaz de perceber o próprio comportamento como parte de um sistema maior. Quando um evento inesperado o transporta para uma realidade paralela comandada por mulheres, essa lógica implode.
O que parecia fantasia absurda rapidamente se transforma em exercício de percepção. A grande inteligência de “Primeiro as Damas” está em utilizar uma estrutura quase fantástica para abordar algo profundamente cotidiano. Damien acorda em um universo onde o poder institucional, econômico e simbólico pertence às mulheres. Aquilo que antes era invisível para ele se torna imediatamente palpável. Interrupções constantes. Redução à aparência física. Descrédito automático. Olhares que avaliam antes de escutar. Piadas que diminuem. Espaços onde sua voz simplesmente perde peso.
A narrativa faz dessa inversão seu principal motor satírico, mas evita transformar a proposta em mero jogo de caricaturas. O desconforto do protagonista funciona como tradução visual de desigualdades que, para muitas mulheres, jamais dependeram de ficção para existir.A força do filme está justamente nessa percepção gradual. Damien não atravessa apenas uma mudança de ambiente. Ele é obrigado a experimentar a fragilidade de quem nunca precisou pensar sobre ela. A comédia surge desse choque, mas também da recusa inicial em compreender o que está acontecendo.
Sacha Baron Cohen encontra aqui um registro diferente daquele que costuma definir sua trajetória. O exagero ainda existe, mas aparece mais controlado, menos voltado à provocação escancarada e mais interessado na construção de um personagem que precisa ser insuportável para que sua transformação faça sentido. O ator sustenta bem essa transição entre o cinismo e a vulnerabilidade.
Rosamund Pike, como Alex Fox, surge como contraponto perfeito. Brilhante, determinada e plenamente confortável em um sistema que a favorece, Alex poderia facilmente escorregar para uma caricatura simplista. Pike evita esse caminho. Sua personagem não é construída como antagonista, mas como expressão natural de um mundo invertido. Isso faz toda diferença. Em vez de vilanizar o poder feminino, o roteiro utiliza Alex para questionar o próprio funcionamento das estruturas de autoridade.
O texto de Katie Silberman e Natalie Krinsky também se diverte com os detalhes desse universo alternativo. Referências como “Victor’s Secret”, “Burger Queen” e “Lady of the Rings” funcionam como comentários visuais inteligentes, pequenas ironias espalhadas para reforçar a lógica daquele matriarcado exagerado.
Esses detalhes ajudam a sustentar uma sátira que poderia facilmente perder força caso dependesse apenas do discurso. Em alguns momentos, o longa parece dialogar diretamente com “Do Que as Mulheres Gostam”, mas com uma proposta menos romântica e muito mais afiada em suas intenções sociais. Enquanto aquele clássico apostava na empatia masculina através da fantasia emocional, “Primeiro as Damas” prefere uma imersão desconfortável, quase didática, sobre como pequenas violências estruturais moldam relações profissionais e pessoais.
Ainda assim, a obra não escapa de certas limitações. O roteiro por vezes simplifica demais suas próprias ideias e parece encurtar discussões que mereciam mais tempo de desenvolvimento. Alguns personagens secundários entram e saem sem impacto significativo, e a sensação de que o filme poderia explorar mais profundamente seu universo alternativo permanece até os créditos finais.
Talvez quinze minutos extras permitissem uma elaboração maior das consequências desse mundo invertido. Outro ponto curioso surge justamente em uma de suas possíveis leituras mais provocativas. Ao inverter completamente os papéis, o filme também sugere que o problema talvez esteja menos em quem ocupa o poder e mais em como o poder costuma ser exercido. Essa interpretação pode gerar debate. Afinal, a proposta parece dizer que sistemas hierárquicos, independentemente de gênero, tendem a reproduzir exclusões semelhantes. Uma provocação válida, ainda que simplificada.
O mérito de “Primeiro as Damas” está em entender que algumas mensagens funcionam melhor quando chegam disfarçadas de entretenimento. O riso abre espaço para a reflexão. O exagero escancara aquilo que o cotidiano tenta suavizar. O absurdo permite enxergar com nitidez o que normalmente passa despercebido.
Ao final, permanece uma pergunta desconfortável. Quantas experiências seriam necessárias para que privilégios deixassem de ser invisíveis para quem sempre os carregou como direito natural? A resposta talvez nunca venha de forma completa. Mas filmes como este ajudam a empurrar essa conversa para um lugar de maior honestidade.
“Primeiro as Damas”
Direção: Thea Sharrock
Roteiro: Katie Silberman, Natalie Krinsky
Elenco: Sacha Baron Cohen, Rosamund Pike, Richard E. Grant
Disponível em: Netflix
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