Uma fábula que atravessa gerações sempre carrega um risco silencioso, o de virar refém da própria memória coletiva. “Pinóquio” surge nesse terreno delicado, tentando se afastar do imaginário mais popular enquanto flerta com ele o tempo inteiro, como quem quer reinventar a roda sem abrir mão do formato original.

A proposta até parece ousada no papel. Um carpinteiro solitário, uma chave mágica entregue por figuras improváveis e o desejo clássico de transformar madeira em vida. Só que o filme dirigido por Igor Voloshin encontra dificuldade em sustentar essa ambição. O que começa com atmosfera envolvente rapidamente se perde em uma narrativa que se fragmenta, sem encontrar um eixo claro para conduzir a história.
Existe um esforço visível em construir identidade visual. A direção de arte aposta em um universo carregado, com ecos de uma estética que remete ao teatro e ao circo de inspiração soviética. Esse ambiente, por vezes sombrio e extravagante, é um dos poucos elementos que realmente se destacam, criando imagens que despertam curiosidade mesmo quando o roteiro vacila.
O problema aparece quando a estrutura dramática pede consistência. A ausência de elementos clássicos, como o crescimento do nariz, revela uma tentativa de ruptura que não encontra substituto à altura. A inovação aqui soa mais como subtração do que reinvenção, esvaziando o impacto simbólico da jornada do personagem.
No centro da trama, Pinóquio permanece preso a um arquétipo conhecido, o da inocência em conflito com um mundo corrupto. Só que essa construção nunca evolui de forma convincente. As motivações são rasas, os conflitos carecem de peso e as transformações emocionais acontecem sem o devido preparo. O resultado é uma trajetória que parece avançar por obrigação, não por necessidade dramática.
Quando a narrativa migra para o ambiente do teatro, a expectativa de expansão se transforma em frustração. O antagonista carece de presença, e decisões fundamentais dos personagens, especialmente de Gepeto, enfraquecem a credibilidade do conjunto. Falta urgência, falta tensão, falta consequência.
A tentativa de inserir o formato musical também não ajuda. As canções surgem sem força, pouco memoráveis e desconectadas do desenvolvimento da história. Em vez de ampliar a experiência, acabam funcionando como interrupções. O ritmo sofre e o envolvimento do público se dilui a cada nova inserção musical.
Ainda assim, o filme toca em temas relevantes como solidão, abandono e desigualdade. Essas camadas aparecem, mas não ganham profundidade. Tudo permanece na superfície, como ideias que nunca chegam a se transformar em discurso consistente.
Visualmente, alguns detalhes chamam atenção, inclusive de forma involuntária. O design do protagonista, especialmente nos closes, causa estranhamento em vez de encantamento. Esse desconforto poderia ser explorado a favor da narrativa, mas acaba parecendo um ruído estético sem função clara.
“Pinóquio” se encaixa em um movimento recorrente do cinema contemporâneo, o de revisitar clássicos sem encontrar uma justificativa sólida para isso. A sensação é de um projeto que busca identidade, mas se perde no caminho, entregando uma experiência irregular e, em muitos momentos, monótona. Quando comparado a releituras mais recentes, como Pinocchio, o contraste fica evidente. Ali existe uma leitura autoral forte, aqui sobra indecisão. E nesse jogo, a nova versão acaba ficando para trás.
“Pinóquio”
Direção: Igor Voloshin
Elenco: Aleksandr Yatsenko, Vitaliya Kornienko, Alexander Petrov, Anastasiya Talyzina, Anton Shastun, Fyodor Bondarchuk
Disponível em: cinemas brasileiros
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