Um desfile de ideias que entra na passarela com ambição e tropeça na própria costura. “Vidas Entrelaçadas” se apresenta como um drama que quer falar de doença, identidade e pertencimento dentro do universo da moda, mas acaba preso em um rascunho que nunca vira coleção completa.

A premissa sugere densidade. Uma cineasta americana em Paris, atravessando a Semana de Moda enquanto lida com questões pessoais profundas. O cenário ajuda, claro. Luzes, bastidores, tensão criativa. Tudo parece pronto para um mergulho intenso, mas o filme opta por circular na superfície.
Sob o olhar de Alice Winocour, a narrativa aposta em múltiplos pontos de vista, como se cada personagem fosse um fio importante dessa trama. O problema surge quando esses fios nunca se entrelaçam de fato. As histórias coexistem, mas raramente se conectam, criando a sensação de blocos soltos que caminham lado a lado sem diálogo real.
O eixo mais sólido aparece quando a câmera decide acompanhar a personagem de Angelina Jolie. Existe presença, existe entrega. Sua atuação carrega um peso emocional que o roteiro insiste em não acompanhar, como se o filme confiasse que o talento em cena fosse suficiente para preencher lacunas estruturais.
A abordagem da doença, que poderia funcionar como motor dramático, se dilui. O impacto da descoberta aparece, mas suas consequências ficam suspensas. A narrativa parece estacionada em um primeiro ato prolongado, evitando mergulhar nas transformações que dariam sentido ao percurso. Falta consequência, falta evolução.
Nos núcleos paralelos, a fragilidade fica ainda mais evidente. Personagens surgem, ocupam espaço e desaparecem sem deixar marca. Arcos que prometem relevância terminam vazios, como ideias abandonadas no meio do caminho. A costureira, a maquiadora, figuras que poderiam ampliar o olhar sobre esse universo, acabam subutilizadas.
Visualmente, o filme encontra momentos interessantes. O ambiente da moda aparece com menos caricatura do que o esperado, quase como um espaço de criação genuína, ainda que permeado por tensões. Essa escolha foge do lugar comum da toxicidade exagerada e tenta construir um olhar mais humano, mesmo que irregular.
O grande impasse está na incapacidade de transformar conceito em experiência. A direção sugere, o roteiro ensaia, o elenco entrega, mas nada converge. A sensação é de assistir a um filme que acumula intenções sem concretizá-las. Quando o clímax chega, ele depende de uma carga emocional que nunca foi construída, e o impacto simplesmente não acontece. Ainda assim, o projeto revela ambição. A reunião de nomes como Garance Marillier, Ella Rumpf e Vincent Lindon indica uma tentativa de criar um mosaico rico de personagens e experiências. Falta organização, falta decisão, falta um fio condutor que sustente tudo isso.
“Vidas Entrelaçadas”
Direção: Alice Winocour
Elenco: Angelina Jolie, Ella Rumpf, Finnegan Oldfield, Garance Marillier, Louis Garrel, Miglen Mirtchev, Sean Gullette
Disponível em: cinemas brasileiros
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