“Heroina” surge como o capítulo mais revelador da trajetória de Sevdaliza desde “Shabrang“. O disco chega carregado de expectativas, afinal a artista sempre operou como arquiteta de atmosferas densas, com vocais que pareciam flutuar por cima de texturas meticulosamente lapidadas. Desta vez, porém, o caminho segue outro curso. A cantora abraça o reggaeton, o neoperreo e a pulsação do funk brasileiro, moldando um mosaico pop-latino que busca uma simbologia própria dentro do seu universo estético.

A abertura entrega um prólogo orquestral que sugere grandeza. Há algo de ritual ali, como se o álbum quisesse invadir o ouvinte antes do primeiro beat. Esse clima inicial alimenta a promessa de um projeto amplo, capaz de reorganizar o imaginário da artista. O início desenha a ideia de que “Heroina” pretende ser um rito de passagem.
Assim que os primeiros instrumentais de reggaeton se instalam, a estrutura do disco assume uma outra ambição. A produção mira tendências globais, inclina-se aos timbres da música latina mais radiofônica e introduz as parcerias com Karol G, Kenia Os e Tokischa como motores de identidade. Há energia, fluxo e intenção de fluidez, porém o diálogo entre essas influências e a assinatura de Sevdaliza se mostra irregular. O álbum corre atrás de um território pop que raramente conversa com o refinamento textural que marcou a artista em “Shabrang”.
A primeira metade de “Heroina” reúne as faixas mais coesas. Entre batidas compactas e arranjos que respiram melhor, surgem momentos em que a produção encontra verdadeiros pontos de tensão criativa. “On My Own”, por exemplo, desenha uma construção instrumental promissora e entrega uma das melodias mais envolventes do disco, mesmo com um encerramento abrupto que interrompe o impulso emocional que ela vinha levantando. Já “Maria Magdalena” aparece como um dos picos do repertório, com instrumental que gira como lâmina em rotação silenciosa. A faixa pulsa, vibra e leva Sevdaliza para um território em que sua performance vocal ganha uma moldura mais eficiente.
O centro do álbum, porém, expõe o maior desafio. Os instrumentais latinos se repetem, certas escolhas de produção soam artificiais e a voz da artista recua em intensidade, cedendo espaço para camadas que tentam preencher o vazio deixado pela ausência do protagonismo vocal. O disco atravessa um trecho em que a identidade estética parece se diluir. Faixas curtas ganham sensação de extensão, como se suas estruturas girassem em falso. “Stripper” se torna exemplo claro desse fenômeno: sua brevidade oferece pouco frescor à repetição rítmica.
Algumas canções tentam restituir fôlego. “Oxytocin” apresenta texturas interessantes, mas também termina antes de consolidar o clima. “Strong Because You Are” carrega uma mensagem lírica potente, embora o arranjo permaneça estático. “Postergirl”, por sua vez, aposta em simplicidade, porém perde densidade em comparação ao repertório anterior da cantora.
O desfecho com “Angel” representa o momento mais intrigante de todo o álbum. A faixa guarda um respiro trip hop que dialoga diretamente com a Sevdaliza de anos anteriores, posicionando cordas e batidas como se construíssem uma cena cinematográfica. O final aponta para um caminho mais profundo que o disco poderia ter explorado com maior frequência.
A ideia central de “Heroina” é clara: unir espiritualidade, sensualidade e latinidade em um organismo só. A execução, entretanto, segue por vias irregulares. A estética pop-latina se impõe com força, enquanto a identidade que fez de Sevdaliza um nome tão singular acaba deslocada para a borda do próprio projeto. O álbum carrega visão, intenção e temas fortes, porém atravessa a experiência com oscilações que fragmentam essa proposta.
Mesmo assim, o disco reserva momentos que brilham isoladamente e que demonstram que Sevdaliza ainda domina a arte de criar atmosferas. Basta escolher as faixas certas e o universo dela se revela de novo, mesmo que por frestas. “Heroina” surge como obra de transição, muito mais interessada em experimentar do que em reafirmar antigos territórios. Há fragilidades, há excessos, há faixas que se perdem, porém o álbum abre portas para uma fase em que a artista pode reconstruir sua linguagem a partir do impacto dessas escolhas.
A sensação é de que Sevdaliza mira longe e acerta em partes, como quem testa armas novas e calibra munições diferentes para um próximo grande movimento. “Heroina” revela um capítulo de busca e expansão, com quedas evidentes, porém um futuro aberto à reinvenção.
Nota final: 55/100
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