“Nós vivemos em uma sociedade em que é preciso ter tudo e ele não tem nada”, conta Osmar Prado sobre o Velho do Rio em “Pantanal”

Velho do Rio (Osmar Prado)

Certamente um dos personagens mais emblemáticos de “Pantanal”, novela que foi exibida originalmente em 1990 e ganha remake a partir do dia 28 de março na Globo, é o Velho do Rio. Vivido originalmente por Cláudio Marzo, que morreu em 2015, e interpretado agora por Osmar Prado, o personagem é cercado de mistérios.

Em bate-papo com jornalistas nesta terça-feira (15), Osmar Prado lembrou quando recebeu o convite e disse que, com a pandemia, não cortou cabelo e barba e “estava a meio caminho da caracterização”. Em 1990, Claudio Marzo viveu o Velho do Rio, mas usava barba postiça porque vivia três personagens. “Eu já tinha uma barba verdadeira, então faltava o aspecto interior. O Velho do Rio é independente, recluso, aparece pouco, mas quando aparece tem um significado muito grande”, conta.

“Eu fiz uma reclusão e não foi fácil nem está sendo fácil. Fiquei recluso no Pantanal porque não é fácil viver o Velho do Rio. Nós vivemos em uma sociedade em que é preciso ter tudo e ele (Velho do Rio) não tem nada. Ele tem a sua alegria, leveza e a justiça. Olha que presente maravilhoso que me foi outorgado!”, comemora.

Mas “Pantanal” traz outros personagens icônicos, como Maria e Juma Marruá, José Leôncio, Joventino e outros. A responsável por trazer para a telinha grande parte do que realmente existe no Pantanal é a produtora de, Arte Mirica Vianna. “É muito difícil dar vida ao que autor escreve. O Pantanal é muito rico e tentamos trazer o Pantanal para dentro dos estúdios, usando todo esse material que nós temos para dar possibilidade aos atores de criarem em cima do que apresentamos pra eles”, conta.

“São vários núcleos e épocas, e tentamos mostrar a simplicidade, pobreza, plantação de milho, tentamos dar uma coisinha especial para cada personagem. É muito rico o nosso trabalho”, completa Mirica, lembrando que viajou em março do ano passado para o Pantanal. “Visitamos os peões, casas dos peões que moravam nas grandes fazendas. Até fiz umas aulas de montaria antes de ir para o Pantanal porque queria muito montar a cavalo e seguir uma comitiva. Eu segui uma comitiva e foi maravilhoso, é uma sensação que te coloca dentro da realidade. Fiquei uns 10, 12 dias visitando tudo, tentava acordar o mais cedo possível, conhecer”, acrescenta.

“É muito lindo ver essa imersão porque é um trabalho non stop. Quando eu cheguei no Pantanal, encontrei Mirica e ela já estava com uma cara de dona daquela cozinha, envolvida naquele lugar. Ela faz uma imersão como se fosse uma atriz e mesmo fora dos períodos de trabalho é o tempo todo atenta. Um dia terminamos de gravar e tinha umas chalanas no porto, a Mirica falou que queria ter visto um paninho sujo dentro da chalana. O tempo todo esse observar, olhar, não para nunca”, lembra a intérprete de Maria Marruá.

PRODUÇÃO DE ARTE

A produção de arte de uma novela pode ser comparada ao trabalho de uma orquestra. Se há um projeto amplo a ser admirado, são os detalhes que enriquecem o caminho e fazem do resultado algo tão especial. É neste contexto que se destacam os seis meses de pesquisa de Mirica, mergulhando no universo pantaneiro até finalizar seu planejamento. Plano pronto, mais alguns meses para encomenda e confecção dos objetos de cena que trazem vida aos cenários e remetem à realidade vivida pelos fazendeiros, peões e moradores da região, levando para todo o Brasil características importantes da cultura de um dos biomas mais ricos do país.
 
Seja em externa no Mato Grosso do Sul, ou nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, o departamento de arte é responsável por cada detalhe das cenas: a carne e as ferramentas de um churrasco; a sela da montaria; a rede da varanda; as bebidas da mesa de jantar; entre muitos outros itens. Uns mais comuns, outros mais peculiares. Para “Pantanal”, por exemplo, Mirica e sua equipe precisaram encomendar de uma artesã uma sucuri de quatro metros de comprimento. “Ela é maleável, temos que passar diariamente uma glicerina para não ressecar. Quando encomendamos, pedimos que houvesse a possibilidade dessa cobra entrar dentro da água. Materiais como esses não podem ficar no calor do Pantanal. Mandamos fazer uma casinha, um compensado de madeira para abrigá-la. E não termina por aí. Para as gravações, precisamos deslocar essa cobra de uma fazenda para outra. Ligamos para a frota e pedimos um carro específico para a arte, com caçamba atrás, e encomendamos um rack com a medida da cobra”, conta a produtora, explicando que a cobra “fake” funciona como uma dublê da cobra de verdade; essa, sim, usada na maior parte das cenas.
 
A “dublê da sucuri” é carioca, mas muitos outros produtos Mirica fez questão de encomendar no Mato Grosso do Sul, de pequenos produtores locais, como é o caso de alguns itens que servirão a fazenda de José Leôncio (Renato Góes/Marcos Palmeira), a tapera de Juma (Alanis Guillen) e a chalana de Eugênio (Almir Sater). “Comprei a louça toda do povo Terena, produzida por indígenas da região. São travessas de cerâmica vermelha com desenhos indígenas para a fazenda, louças mais simples para a tapera e algumas sacolas que eles fazem de mercado, com desenhos lindos para a chalana, que encomendamos para homenagear esse povoado local. Quando entramos em contato com eles, tivemos ainda a oportunidade de conversar com o pajé e tirar algumas dúvidas sobre como são tratadas pessoas que sofrem picadas de cobra ou são atacadas por animais, pois precisaremos ter em algumas cenas o que seria usado em casos como esses, já que o Velho do Rio em determinado momento irá ajudar uma pessoa, e explicará que aprendeu o ritual com indígenas”, diz Mirica, dando a dimensão da riqueza de detalhes do trabalho de seu departamento.
 
Como não poderia deixar de ser, a música tem um papel de destaque em “Pantanal”. Foi assim há 30 anos, na primeira versão, escrita por Benedito Ruy Barbosa, e será agora nesta nova versão escrita por Bruno Luperi. Almir Sater, que dá vida ao chalaneiro Eugênio; seu filho Gabriel Sater, que interpreta o peão Trindade; Chico Teixeira, que estreia como ator interpretando o peão Quim na primeira fase; e Guito, que dá vida ao peão Tibério na segunda fase são todos músicos e na dramaturgia serão alguns dos violeiros da novela. “O Papinha (diretor artístico, Rogério Gomes) é um amante da música e queria um som legal, por isso a escolha dos violões foi tão importante. Ligamos para o artista e perguntamos como estão acostumados a tocar. Fizemos um violão para o Tibério, Quim e Trindade. O Gabriel Sater nos mandou todas as especificações e encomendamos um igual ao dele, envelhecemos de forma que ficasse uma réplica. Até brinquei que ele não saberia dizer qual é qual. O Almir ficou encantado com o violão que encomendamos para o Chico Teixeira. Ele adorou, tocou à beça. No caso do Almir, liguei para ele, que me disse que os violões dele são muito antigos, têm cara de época. Ele deixou a gente dar uma ‘envelhecidinha’ estando ao lado, cuidando de tudo (risos). Portanto, é o único que usará seu violão próprio”, finaliza Mirica.

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