Alguns filmes parecem cartões postais em movimento. Colinas douradas, ruas de pedra, cafés pequenos onde o tempo parece correr em outro ritmo, janelas abertas para paisagens que quase pedem silêncio. Tudo convida ao encantamento imediato. O problema é que beleza, sozinha, raramente sustenta uma história. “Da Toscana, com Amor” compreende perfeitamente como construir esse cenário de romance idealizado, mas encontra mais dificuldade quando precisa preencher suas imagens com emoção verdadeira.

Adaptado do romance de Felicia Kingsley, o longa dirigido por Laura Chiossone mergulha no tipo de narrativa que o cinema romântico europeu conhece bem. Elisa retorna ao centro da própria vida emocional quando reencontra um amigo de infância, despertando memórias, afetos antigos e questões que o tempo aparentemente havia deixado adormecidas. Em teoria, o terreno é fértil para uma história sobre reencontros, amadurecimento e segundas chances.
Na prática, o filme oscila entre charme genuíno e uma estranha sensação de improviso permanente. Existe algo curiosamente cativante nessa irregularidade. Mesmo quando a produção expõe suas fragilidades com certa clareza, o interesse permanece. Talvez pela promessa de romance. Talvez pelo desejo de permanecer mais alguns minutos naquele cenário toscano cuidadosamente fotografado. Talvez porque a própria estranheza da experiência se transforme em parte de seu apelo.
O roteiro segue caminhos previsíveis. Quase cada passo da trama pode ser antecipado com facilidade. O reencontro que desperta sentimentos antigos. As hesitações emocionais. As mágoas mal resolvidas. As oportunidades perdidas que pedem uma nova tentativa. Tudo parece familiar. Ainda assim, existe uma curiosa insistência em assistir até o fim, como se o filme guardasse algum pequeno segredo em sua execução. Parte dessa sensação vem justamente de suas escolhas tonais.
Em vários momentos, “Da Toscana, com Amor” parece indeciso sobre qual identidade deseja assumir. Quer ser uma comédia romântica leve, mas também busca espaço para dramas familiares mais profundos. Quer explorar vínculos afetivos antigos, mas muitas dessas relações recebem desenvolvimento superficial. O elo entre Elisa e sua filha, por exemplo, surge como um componente emocional importante, mas permanece subexplorado. Faltam cenas que permitam compreender com mais clareza a intimidade, os conflitos e as dores compartilhadas entre ambas. Esse vazio emocional também afeta o romance central.
A química entre os protagonistas existe em lampejos, mas raramente se transforma em algo suficientemente intenso para justificar o peso dramático que o roteiro deposita sobre ela. Certos diálogos parecem hesitantes. Algumas trocas emocionais soam mais ensaiadas do que espontâneas. O coração da narrativa pulsa, mas em frequência irregular.
Visualmente, o filme faz exatamente aquilo que se espera. As paisagens da Toscana recebem tratamento quase publicitário. As colinas aparecem banhadas por uma luz calorosa, as ruas do pequeno vilarejo parecem saídas de uma pintura e os enquadramentos aéreos fazem questão de lembrar ao espectador que aquele cenário é, em si, uma promessa de romance. Funciona até certo ponto. Depois de algum tempo, a repetição dessas imagens começa a transmitir a sensação de que o filme confia demais em sua própria ambientação para compensar aquilo que falta em sua construção dramática.
A trilha sonora também contribui para essa sensação de desalinhamento. Algumas escolhas musicais parecem deslocadas da atmosfera proposta, como se pertencessem a outro tipo de produção. A música, que deveria aprofundar a imersão, frequentemente interrompe o encanto.
Curiosamente, o filme encontra parte de sua maior força nos personagens periféricos. A mãe e as senhoras do vilarejo roubam cenas sempre que aparecem. Com humor natural, presença acolhedora e um carisma que surge sem esforço, elas trazem uma leveza que muitas vezes falta ao núcleo principal. São essas figuras que ajudam a lembrar por que histórias ambientadas em pequenas cidades costumam funcionar tão bem. Elas oferecem textura, calor humano e autenticidade.
Talvez “Da Toscana, com Amor” nunca alcance a intensidade emocional que deseja transmitir, mas também nunca se torna totalmente descartável. Seu charme imperfeito, suas escolhas às vezes estranhas e sua atmosfera ensolarada criam uma experiência curiosa, como um romance encontrado por acaso em uma pequena livraria durante uma viagem. Nem sempre marcante. Nem sempre memorável. Mas suficientemente agradável para acompanhar uma tarde tranquila. Algumas histórias conquistam pela precisão. Outras sobrevivem justamente por suas imperfeições.
“Da Toscana, com Amor”
Direção: Laura Chiossone
Elenco: Cristiano Caccamo, Matilde Gioli, Sebastiano Pigazzi, Amanda Campana, Bebo Storti, Cecilia Dazzi, Marco Cocci, Margherita Rebeggiani
Disponível em: Amazon Prime Video
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