Toda trajetória artística que nasce à margem carrega uma tensão silenciosa entre pertencimento e ruptura. Crescer dentro de uma realidade que impõe limites e, ainda assim, escolher sonhar em outra direção costuma exigir mais do que talento. Exige insistência. Exige convicção. Exige suportar o desconforto de ser incompreendido até que a própria visão se torne impossível de ignorar. “Hungria: A Escolha De Um Sonho” encontra sua força justamente nesse conflito, ao transformar a ascensão de Gustavo da Hungria Neves em um retrato sobre identidade, resistência e a coragem de desafiar até mesmo as expectativas do próprio meio.

Ambientado na Cidade Oriental, região periférica do Distrito Federal que moldou o olhar e a ambição do artista, o longa acompanha os primeiros passos de um jovem que decidiu cantar sobre desejos que ainda pareciam distantes demais para sua realidade. Em um momento em que o rap brasileiro concentrava seu discurso em outras urgências sociais, Hungria escolheu trilhar um caminho próprio, falando de carros, conquistas e prosperidade como manifestação de desejo, projeção de futuro e afirmação de possibilidade. Essa decisão, naturalmente, cobra seu preço.
O filme entende que a jornada de Hungria nunca foi apenas musical. Trata-se de um embate constante entre autenticidade e rejeição, entre sonho e pertencimento, entre o impulso de seguir adiante e a pressão para permanecer dentro de uma narrativa já esperada para alguém de sua origem.
Ao lado do protagonista, surgem figuras fundamentais para sustentar esse percurso. Gabiru aparece como força motriz inicial, amigo, incentivador e peça decisiva para que a primeira gravação se torne realidade. Dona Raquel, interpretada com sensibilidade por Taty Godoi, representa o eixo emocional da narrativa, funcionando como símbolo de suporte, firmeza e afeto diante das inevitáveis dificuldades. O grande destaque da produção, porém, pertence a Gabriel Santana. Sua atuação sustenta o filme em seus melhores e também em seus momentos mais frágeis.
Com presença cênica sólida e entrega emocional convincente, o ator constrói um protagonista humano, determinado e vulnerável. Existe cuidado na composição dos gestos, na postura e na maneira como traduz a tensão interna de alguém que tenta se afirmar diante de um ambiente constantemente desafiador. Quando o roteiro hesita, Gabriel Santana mantém o longa de pé.
E isso acontece mais vezes do que deveria. “Hungria: A Escolha De Um Sonho” tinha diante de si a oportunidade de expandir os limites tradicionais do biopic musical brasileiro. A matéria prima é rica. A trajetória do artista oferece camadas sociais, culturais e emocionais capazes de sustentar uma narrativa muito mais inventiva. O que surge em tela, porém, opta por uma estrutura excessivamente convencional.
A montagem segue caminhos previsíveis, a construção dramática raramente se arrisca e muitos dos cenários parecem subaproveitados dentro de uma história que merecia respirar com mais intensidade. A Cidade Oriental, que poderia funcionar como personagem viva dentro do filme, surge mais como pano de fundo do que como elemento ativo da narrativa. Falta textura. Falta imersão. Falta transformar espaço em memória.
Também existe certa irregularidade na costura emocional dos acontecimentos. Algumas passagens importantes parecem apressadas, enquanto conflitos internos e externos que poderiam ganhar maior densidade acabam apresentados de forma superficial. A sensação que permanece é a de um filme interessado em registrar uma trajetória importante, mas hesitante em aprofundar suas contradições. Ainda assim, seria injusto reduzir a experiência às suas limitações estruturais.
O longa funciona como uma homenagem sincera a uma história de persistência e como porta de entrada para compreender a relevância cultural de Hungria dentro da música brasileira. Ao mostrar um artista que insistiu em falar sobre prosperidade quando muitos ao redor ainda enxergavam isso como afronta, o filme também discute poder simbólico. Falar sobre vitória, sobre conquista material e sobre desejo pode ser, em certos contextos, um gesto profundamente político.
“Hungria: A Escolha De Um Sonho” talvez não alcance toda a potência cinematográfica que sua narrativa comporta, mas permanece extremamente acessível, envolvente e impulsionado por uma atuação central que merece reconhecimento. Um retrato ainda parcial de uma trajetória poderosa, mas suficientemente sensível para lembrar que alguns sonhos só se tornam possíveis porque alguém insistiu em imaginá-los primeiro.
“Hungria: A Escolha De Um Sonho”
Direção: Izaque Cavalcante, Cristiano Vieira
Elenco: Gabriel Santana, André Ramiro, Ramon Brant, Taty Godoi
Disponível em: Nos cinemas
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