Certos filmes de ação entendem perfeitamente o próprio papel. Não tentam reinventar fórmulas, nem escondem suas referências. Pelo contrário. Caminham com a confiança de quem sabe exatamente de onde veio e para onde quer levar o público. Um prédio tomado. Reféns espalhados por corredores luxuosos. Um grupo armado impondo sua própria lógica. Uma heroína isolada tentando impedir o desastre. Basta essa combinação para que ecos de “Duro de Matar” surjam imediatamente na memória. “Resgate em Grande Altitude” reconhece essa herança sem qualquer constrangimento e transforma essa familiaridade em parte de sua identidade.

Sob a direção experiente de Martin Campbell, veterano que ainda demonstra notável domínio sobre ritmo e espacialidade, o longa posiciona sua protagonista literalmente do lado de fora da ação. Suspensa a cinquenta andares de altura, limpando as janelas de um edifício corporativo em Londres, uma ex militar se vê diante de uma situação extrema quando um grupo de ativistas invade a festa de gala de uma gigante do setor energético e faz centenas de convidados reféns.
A premissa tem a simplicidade eficiente das melhores histórias de sobrevivência. Uma única pessoa contra um sistema inteiro em colapso. Joey, interpretada por Daisy Ridley, carrega a energia necessária para sustentar esse tipo de narrativa. Sua presença em cena combina vulnerabilidade física com uma resistência emocional que torna fácil comprar sua transformação em força de combate. Existe um prazer evidente da atriz em abraçar certos clichês clássicos do cinema de ação. Cada olhar determinado, cada movimento improvisado, cada decisão tomada sob pressão ajuda a construir uma protagonista funcional, ainda que o roteiro nunca aprofunde completamente suas camadas.
Martin Campbell sabe exatamente como filmar tensão vertical. O uso constante da altura como elemento dramático funciona muito bem. As sequências externas, com Joey pendurada do lado de fora do prédio, são algumas das imagens mais eficazes do longa. O vazio abaixo dela se torna quase um personagem invisível, alimentando a urgência de cada cena. Visualmente, o diretor também consegue algo importante: fazer a produção parecer maior do que provavelmente é. O prédio luxuoso, os corredores iluminados, as máscaras estilizadas dos invasores e a movimentação entre os andares criam uma sensação de escala que fortalece a experiência.
O problema surge quando o filme decide complicar aquilo que funcionaria melhor em sua forma mais direta. O grupo antagonista, apresentado como ativistas determinados a expor a corrupção de uma poderosa empresa de energia, carrega uma motivação que poderia acrescentar tensão moral à trama. A tentativa de inserir discussões sobre responsabilidade corporativa, manipulação econômica e ativismo radical é compreensível, mas o roteiro insiste em transformar essas ideias em longos discursos explicativos que quebram o impulso narrativo.
Em vez de intensificar a urgência, muitos diálogos apenas atrasam a ação. A sensação é de assistir a um filme dividido entre dois impulsos. De um lado, deseja ser um thriller de ação direto e energético. De outro, tenta construir um comentário social mais complexo do que sua própria estrutura consegue sustentar. Esse desequilíbrio enfraquece parte do impacto. Ainda assim, quando resolve simplesmente entregar adrenalina, “Resgate em Grande Altitude” encontra seus melhores momentos.
As cenas de combate são claras, objetivas e bem coreografadas. Campbell continua entendendo como poucos a importância de manter o espectador orientado dentro do caos. Cada corredor, cada porta, cada deslocamento importa. Nada parece excessivamente confuso, algo cada vez mais raro em produções do gênero.
No elenco de apoio, Taz Skylar injeta energia suficiente para tornar o antagonismo mais interessante, enquanto Clive Owen aparece menos do que deveria, deixando a sensação de potencial pouco explorado. Sua presença adiciona peso imediato, mesmo com tempo reduzido em tela.
Talvez o maior elogio que se possa fazer ao longa esteja justamente em sua honestidade. “Resgate em Grande Altitude” entende que certos filmes existem para acompanhar uma tarde preguiçosa, para preencher duas horas com tensão suficiente, explosões pontuais e uma heroína determinada atravessando obstáculos impossíveis.
“Resgate em Grande Altitude”
Direção: Martin Campbell
Elenco: Daisy Ridley, Clive Owen, Akie Kotabe, David Cheung, Ray Fearon
Disponível em: Amazon Prime Video
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