Fazer cinema de terror no Brasil ainda exige uma dose considerável de insistência. Fazer um filme de vampiro que se afaste da caricatura, abrace o suspense, dialogue com o romance sombrio e aposte em uma protagonista feminina que não ocupa o lugar tradicional da vítima torna esse desafio ainda maior. “Love Kills“, novo longa dirigido e roteirizado por Luiza Shelling Tubaldini e estrelado por Thais Lago, nasce justamente dessa combinação entre ousadia artística e resistência criativa. Ambientado no centro de São Paulo, entre ruas marcadas pela degradação urbana, pelo concreto e pelas sombras que parecem esconder muito mais do que a pressa cotidiana permite enxergar, o filme acompanha Helena, uma vampira enigmática que desperta a curiosidade de um jovem garçom e o conduz para um universo onde desejo, violência, eternidade e humanidade se confundem a cada nova escolha.

Durante uma conversa sobre o longa, Luiza e Thais deixaram claro que “Love Kills” não surgiu apenas como mais uma produção dentro do gênero, mas como uma tentativa consciente de tensionar as possibilidades do terror nacional, tanto estética quanto simbolicamente. Para Luiza, a origem do projeto aconteceu de forma quase intuitiva, como aqueles momentos em que uma ideia simplesmente se impõe antes mesmo de ser totalmente compreendida. “Posso dizer que o Danilo Beirute, que é o padrinho disso tudo, veio para um almoço, contou a história, e sabe quando cai uma ficha e você fala: cara, é isso aqui? Tudo encaixou num lugar até meio não muito pensado, mas muito sentido. De repente, a coisa meio que funcionou.“ O entusiasmo inicial, no entanto, logo deu lugar à parte mais difícil, transformar aquela convicção em um filme concreto dentro de uma indústria que ainda observa o terror brasileiro com certa desconfiança. “A gente entrou na segunda fase, que é transformar isso em realidade. Quando a gente batia na porta dos estúdios e dizia: olha, o Beirute vai fazer um filme de vampiros no Brasil, eu tenho que confessar que a gente não recebeu olhares muito ansiosos no primeiro momento.“
A resistência encontrada tinha razões históricas. O terror brasileiro, muitas vezes, foi associado a produções que flertavam com a comicidade, com o exagero ou com referências muito específicas de um imaginário popular já consolidado. “Love Kills” queria outra coisa. “Existe uma raridade. Tem alguns filmes de vampiros feitos no Brasil muito bons, claro, mas o público brasileiro tem uma relação com o terror muito ligada à comédia, e esse não é o caso de ‘Love Kills’. Aqui é um filme de vampiros levado a sério.“ Sustentar essa proposta exigiu persistência e, como a própria diretora admite, também alguma dose de sorte. “Conseguir trabalhar o financiamento, levantar os recursos, foi uma coisa que pediu muita dedicação, muito trabalho e um pouco de sorte. Tenho que dizer isso, porque às vezes a gente se esforça e não vai. Aqui aconteceu. Existiu um empurrão que eu não sei se veio da Helena lá de cima.“
Se para a diretora o desafio estava em construir e sustentar esse universo, para Thais Lago o encontro com Helena parece ter acontecido em um plano quase emocional, como se a personagem estivesse esperando por ela. A atriz contou que já vinha desejando, há algum tempo, a oportunidade de protagonizar uma história em que pudesse colocar mais de si mesma. “Eu já estava jogando essa energia para o universo, porque eu queria fazer uma protagonista. Eu estava vindo, na minha carreira, fazendo alguns personagens importantes, mas, de fato, eu queria algo em que eu conseguisse colocar a minha voz.“ Quando soube que se tratava de uma vampira, a resposta veio imediatamente. “Quando uma vampira chegou, eu falei: uau, eu acho que é isso.“
Mas havia algo ainda mais profundo nessa identificação. Thais percebeu ali a chance de ocupar um espaço que, muitas vezes, lhe foi negado pela forma como costuma ser enxergada dentro da indústria. “Primeiro porque a minha imagem nunca é considerada muito nesses papéis. Então eu falei assim, é aqui. Eu quero que as pessoas me vejam como uma mulher que é magnética, que é sensual, que tem poder. Eu quero essa imagem também.“ Essa busca por potência encontrou eco imediato na personagem. “Quando eu fiz o teste e quando eu vi essa personagem, ela me encontrou, a gente se encontrou mesmo. Surgiu esse alerta, tipo assim, eu quero muito fazer. Eu vou muito fazer.“ A atriz lembra até hoje de uma conversa definitiva com Luiza após os testes. “Eu falei para ela assim: Chell, se eu não fosse a protagonista agora, eu não seria outra pessoa. Mas já era a Helena falando assim. Eu sinto que não era só a Thais. Era a Helena falando: gata, bora. Bora que se não for você, eu vou achar outra. Então eu também estava pronta. Acho que as coisas se encontraram.“
Esse encontro entre atriz e personagem ajuda a entender uma das dimensões mais interessantes de “Love Kills”. Helena não ocupa o papel tradicional reservado às mulheres no terror. Ela não é a sobrevivente fragilizada, a figura que corre, teme e reage. Ela conduz. Ela deseja. Ela domina. Para Thais, esse deslocamento é político antes mesmo de ser narrativo. “Se for uma coisa que é não ver uma mulher no lugar de poder, a gente não está acostumado. Talvez o medo não seja nem do fato dela ser uma vampira. Talvez as pessoas tenham medo, ou a sociedade se incomode, de ver mulheres ocupando o lugar de poder sem pedir permissão, sem pedir licença.“ A experiência de viver Helena acabou produzindo reflexos pessoais inesperados. “Ela ensina para a gente que a gente também tem direito e permissão. A Helena me ensinou isso. Você tem permissão de estar. Porque o mundo me contou outra história. Então contar essa história para as pessoas e para o mundo eu acho que é a grande sacada. É o grande diferencial.“
Luiza também enxerga esse reposicionamento do feminino como parte essencial da identidade do longa. Ao olhar para a tradição do gênero, ela percebe uma repetição que precisava ser tensionada. “Quando a gente lembra do feminino no filme de terror, muita gente fala da scream girl. A garotinha que grita. Tem até curso de como ser scream girl.“ Em “Love Kills”, esse arquétipo ganha uma nova forma. “Aqui a gente tem uma scream girl muito diferente“, diz Thais. “Ela é uma vampira que grita lutando.“ Luiza complementa. “Ela está numa outra energia. É um outro ponto de partida. Existe uma ousadia que o filme teve, que a gente buscou demais em todos os departamentos.”
Essa ousadia se espalha por toda a construção visual do filme. A diretora destaca o trabalho cuidadoso do elenco, da direção de arte, do figurino e da fotografia para transformar o centro de São Paulo em um território plausível para a existência de vampiros. “A arte se valeu muito do Centrão de São Paulo. O figurino conseguiu entrar num território muito urbano.“ O resultado, segundo elas, foi uma cidade que parece assumir uma nova identidade diante da câmera. “É bizarro, porque a gente vê muitas brincadeiras falando que São Paulo é a Gotham do Brasil. E realmente ficou a Gotham do Brasil que a gente tanto projeta.” A fotografia também desempenhou papel central nesse processo. “Acho que o Jacob conseguiu chegar em um lugar de criar esse clima, essa atmosfera que te envolve e que permite uma coisa que eu acho que o filme alcança, que é convencer que são vampiros mesmo morando no centro de São Paulo.“
E convencer o público disso, no Brasil, talvez seja uma das tarefas mais difíceis. “A gente assiste ao filme americano, é fácil para a gente comprar o avatar, pessoas em azul que se apaixonam. Agora, quando você faz isso no Brasil, a barra fica mais alta.“ Para Luiza, enfrentar essa dificuldade exigiu precisão. “A gente trabalhou muito para enfrentar isso de uma maneira elegante, de uma maneira que pudesse construir essa verdade imaginária.“
Mais do que criar um universo fantástico, “Love Kills” também se interessa pelo que o terror pode dizer sobre a experiência humana. É justamente essa potência simbólica que fascina Luiza desde a infância. “Eu amo, sempre gostei muito de filmes de terror. Quando eu era pequena, eu sempre ia na locadora atrás deles.“ Mas a paixão pelo gênero vai além da nostalgia. “O terror tem uma coisa que me encanta, que é a gente conseguir colocar em letras maiúsculas assuntos que, necessariamente, a gente tem um pouco de constrangimento de falar. Então acho que o gênero facilita, ele acessa mais rápido.“
Essa leitura do horror como metáfora é parte central da proposta do longa. “O terror é uma metáfora para falar de muitos aspectos do ser humano. E isso combinado com falar desses aspectos com sabor local, eu acho que é o que trouxe o diferencial do ‘Love Kills’.“ Luiza cita como referência a habilidade do cinema sul-coreano de absorver fórmulas globais e traduzi-las para contextos culturais específicos. “Eles fazem isso muito bem. Pegam fórmulas internacionais, seja assalto a banco, seja filme de vampiro, e fazem aquilo com o sabor deles. ‘Love Kills’ busca isso. Fazer um filme de vampiro que fale do mundo dos vampiros, mas que seja alguém que está aqui, da nossa cidade, do nosso povo.“
Para a diretora, há também uma transformação importante acontecendo na forma como o público se relaciona com histórias internacionais. “A gente está vindo de uma época que está se encerrando, que é uma época em que tinha que vir de Los Angeles. Se não fosse uma coisa americana… hoje em dia isso mudou. Você quer ouvir uma história de vampiro da Turquia, uma história de vampiro do Japão. E por que não uma história de vampiro do Brasil?“
Ao final da conversa, quando questionadas sobre filmes de terror que as inspiram, as respostas ajudam a compreender ainda mais o espírito de “Love Kills”. Thais citou um longa recente sobre uma vampira que elimina homens violentos enquanto ensina um jovem a se tornar alguém melhor. “Eu achei isso de uma beleza. Tem um tempo outro.“ Entre os títulos lembrados com entusiasmo, surgiu também “Deixa Ela Entrar”. Luiza escolheu “Amantes Eternos” como referência afetiva e estética. “Ele lida com o tempo. É um filme sobre vampiros, sobre o tempo e sobre o amor desses vampiros. Acho de uma riqueza, de uma delicadeza, a maneira como Jim Jarmusch apresenta e narra aquilo tudo. E a Tilda Swinton… esse é um filme que me moveu muito. Foi uma referência muito importante para a gente.“
Talvez seja justamente nesse encontro entre delicadeza, brutalidade, desejo e identidade que “Love Kills” encontre sua força mais particular. Um filme de vampiro feito no Brasil, sobre vampiros que poderiam estar escondidos entre as esquinas do centro de São Paulo, mas que também fala sobre algo profundamente humano. Sobre desejo de pertencimento. Sobre ocupar espaços historicamente negados. Sobre o medo que ainda existe diante de mulheres que não pedem licença para existir. Helena, afinal, pode até viver nas sombras, mas tudo em sua presença aponta para outra direção. A de um terror brasileiro que quer sair da penumbra e finalmente reivindicar seu próprio lugar.
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