MC Cabelinho é cronista da vida de favela em “Maré”

MC Cabelinho crédito CADU ANDRADE_Easy-Resize.com
Foto: Cadu Andrade

Na esteira da violência policial do estado do Rio de Janeiro, uma hashtag surge nas redes: #VidasNegrasImportam. Em meio à pandemia global, manifestações antirracistas tomam conta das ruas dos Estados Unidos e, agora, também do Brasil.

Por mais que a manifestação digital reivindique a visibilidade dos negros por aqui, foram necessárias dezenas de mortes de jovens para a solidariedade viralizar nas diferentes classes sociais. A hashtag cria uma união, mas apaga a história individual de cada negro diariamente desprotegido e insultado no país.

Por isso, se a vida negra importa, é preciso também falar da vida – e não só da morte. E MC Cabelinho vai desempenhar muito bem essa função este ano. Nesta terça-feira, 2 de junho, o funkeiro lança a música “Maré” em todas as plataformas digitais, com clipe disponível também à meia-noite no Youtube. A canção dá início ao seu mais novo álbum, chamado “Ainda”, que retratará a vida nas favelas cariocas.

Em “Maré”, uma referência ao bairro da Zona Norte do Rio, MC Cabelinho conta a história de um traficante, em que na favela é rei e para o estado é uma ameaça: “Me aprofundei no crime muito cedo / Mesmo sabendo que tinha perigo / Infelizmente, não teve outro jeito / Eu precisava alimentar meu filho”. O crime como a única oportunidade de ganhar dinheiro aprofunda o nosso olhar sobre as desigualdades do Brasil. E o piano por trás da batida deixa a narrativa muito mais delicada.

O clipe expõe essa dupla identidade do traficante, que é chamado de herói por alguns na comunidade e de inimigo pelo sistema. Com armas e cordões de ouro, o personagem principal entrega cestas básicas em casas desassistidas pelo governo – principalmente no atual contexto de propagação do coronavírus. Apesar de ocupar esse lugar ambíguo, ali, a solidariedade se faz muito mais real e provocadora de mudança.

Essa é uma das vidas que serão contadas em “Ainda”, álbum de MC Cabelinho previsto para o segundo semestre deste ano. O título faz referência a uma nova expressão que ganha corpo nas favelas do Rio. O funkeiro explica: “por exemplo: eu pergunto para você ‘vai pro baile hoje?’, você me responde ‘ainda?’. Esse ‘ainda’ vem da ideia de ‘ainda pergunta? É claro que eu vou’”.

Cria do PPG, o conjunto das favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, MC Cabelinho é uma das maiores revelações do funk, com mais de 2,5 milhões de ouvintes mensais no Spotify e 1,8 milhão de seguidores no Instagram. Com parcerias que vão desde MC Tikão, MC Orelha e MC Bração, até os rappers Orochi e Filipe Ret e a cantora Anitta, suas músicas e participações acumulam mais de meio bilhão de visualizações no Youtube. Este ano, ainda estava vivendo o personagem Farula na novela “Amor de Mãe”, da TV Globo, antes da paralisação das gravações.

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