Conheça a Ópera Rock de Nico Antonio e os Filhos do Mar

Nico Antonio e os Filhos do Mar é um grupo formado em 2017 por 8 integrantes, sendo eles: Nico Antonio, Rafael Lauro, Adriana Vasconcellos, Juliana Gushi, Luisa Hokema, Gabriel Garrett, Heitor Marin e Leni Rocha. O grupo se assemelha em forma às “Óperas rock”, com uma narrativa norteando suas composições, mas que se distancia das mesmas no âmbito estético, pois apresentam uma sonoridade que dialoga muito mais com ritmos e compositores brasileiros.

O grupo acaba de lançar o álbum “O Paquiderme”, o álbum é um lançamento na forma de uma “ópera canção”, com influência de ritmos e compositores brasileiros. O registro é um compilado de todas as faixas presentes nos seis últimos EPs lançados pelo grupo.

O Caderno Pop conversou com o Nico, integrante e criador do grupo, batemos um papo sobre o novo disco, suas inspirações musicais e influências na literatura e no teatro.

O grupo é formado por 8 integrantes, como se conheceram até a decisão de formar um grupo?
A decisão de formar o grupo veio antes de definirmos os integrantes. Eu queria fazer um projeto autoral, que acabou tomando essa forma de ópera canção – levei o esboço pro Rafa (Rafael Lauro), que na época era meu professor de violão, e perguntei se ele topava fazer a direção musical. Topou, a partir daí fomos conversando com as pessoas, eu ia lá com as folhas de sulfite cheias de letras, o violão embaixo do braço, falava das ideias e tocava o que tinha pronto pra eles. Doidamente, elas foram, uma a uma, aceitando. De início já tínhamos em mente algumas pessoas que poderiam participar, como a minha mãe, Leni Rocha, que eu queria muito que fosse a narradora (nepotismo que fala?). Mas teve casos como o do Heitor (Heitor Marin), nosso baterista: eu estava num aniversário contando pra um amigo que estava procurando baterista pra entrar em um projeto autoral e ele, que eu ainda não conhecia, mas estava na mesma roda, falou: hey, eu sou baterista e estava querendo tocar em um projeto autoral. A vida, ela é assim. E dessa forma juntamos nossa manada.

Quais são as influências musicais presentes no disco?
As influências são bastante variadas. A estrutura narrativa é uma influência de rock óperas, como “Journey to the Center of the Earth” do Rick Wakeman. Quanto à composição das canções, percebo em minhas músicas influências que vão de Vital Farias e Tim Bernardes a Darrel Scott. A música que amarrou todo o disco, “Dança”, compus inspirado por “Valsinha”, de Chico Buarque. “O Clube da Esquina” e sua sonoridade modal é outra influência tanto na composição quanto na escrita dos arranjos. O Rafa afirma que outras obras que influenciaram no processo de direção musical foram obras como o disco “Construção” de Chico Buarque, e alguns trabalhos de Tom Jobim.

Como foi a experiência de gravar “O Paquiderme” desde sua concepção com os EP’s até a finalização do álbum?
Passamos por uma diversidade de coisas no processo. “O Paquiderme” foi pensado como um show, justamente por seu tamanho – diversos instrumentos, 15 músicas – custear de forma independente este disco estava fora de nosso orçamento. Assim, circulamos um pouco por teatros, tivemos duas formações, participamos de festivais de canção, chegando a ser premiados – enfim, tivemos alguma estrada que nos permitiu lapidar esse trabalho, quando no final de 2019 fomos contemplados pelo ProAC para gravarmos nosso disco. Fomos um dos 20 selecionados entre mais de 600 inscritos, tendo sido reconhecida a sua relevância para uma primeira obra. Com a premiação, deveríamos gravar o disco e fazer um show de lançamento em 2020, mas eis que veio a pandemia. Para além de todas as questões que o Coronavírus trouxe, em nosso caso tivemos que adaptar todo o nosso calendário e pensar novas formas de gravar e lançar o disco – tomando os cuidados necessários para esse contexto. Assim, além de fazermos o disco, selamos uma parceria com o Coletivo Mouffe, um coletivo de mulheres cineastas, que produziriam um álbum visual através do recorte das músicas do disco. Assim, tendo em vista que não seria possível fazermos um show, optamos por um lançamento de forma episódica, com um EP por mês, num recorte narrativo tendo por base os momentos da história e atrelando capítulos dos vídeos com as músicas lançadas. Perrengues mil, foi tudo mais maluco e trabalhoso do que poderia imaginar, mas foi! Tá no ar essa lindeza e com o lançamento do álbum encerramos este processo intenso que me dá um baita dum orgulho.

O disco contém uma riqueza de instrumentos musicais, como ocorreu a ideia de produzir com tanta diversidade e de que forma o grupo se inspira para encaixar essas variedades de sons nas canções?
O fato de possuirmos uma linha narrativa conduzindo o disco, nos levou a lugares um tanto diferentes. Algumas das canções surgiram por demanda da história e não o contrário – para retratar determinada situação buscamos a forma que melhor se adequasse, tanto na composição das canções, como na escrita dos arranjos. Para dar coesão a essa pluralidade entrou o trabalho cuidadoso do Rafael Lauro na direção musical, que retomava temas, fazia sugestões e soube de forma precisa como dosar a relação entre os instrumentos. Esse disco tem muitos detalhes e cuidados que quem se debruçar vai poder desvendar. Para se ter uma ideia, antes da escrita dos arranjos, determinamos “personagens” para cada instrumento, intenções, tem até subtextos escritos com isso. Por exemplo, no disco a flauta tem o papel da inocência, da leveza, surge do sopro, né. Assim, o Rafa entendia esses elementos nas canções dentro do contexto da história, num resultado que ficou fantástico. Em “Rasura”, por exemplo, uma canção que retrata o momento em que a personagem se vê presa em um relacionamento abusivo, uma música em 6 por 8, a flauta está em 3 por 4 e o contrabaixo está em 2 por 4, com os instrumentos brincando com essas diferenças e gerando a sensação de opressão, até convergirem no momento onde ela consegue ter forças pra partir. Há muitas camadas nesse disco que um ouvinte mais atento pode aprofundar e explorar, nos âmbitos simbólicos, poéticos e musicais.

O álbum contempla além da música, a literatura e o teatro. De que forma essas outras modalidades artísticas influenciam o grupo na forma de compor?
Para mim a literatura tem uma relação direta com a composição porque ambas têm a palavra como ferramenta. O que leio molda o que escrevo tanto quanto o que escuto, e não só dentro de uma perspectiva de repertório, como também pela sensibilização. Criar é expressar algo que trago, e isso pode ser tanto algo que vivi, como fatos que presenciei ou fruto das emoções que uma outra arte me gerou. Lembro uma vez, uns bons anos atrás, quando fui a uma instalação no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) que mexeu tanto comigo que passei a semana seguinte meio recluso, com a necessidade de transformar em música aquela sensação – só sosseguei quando aquilo tudo virou canção. No caso do Paquiderme, a presença das narrativas como elementos que amarram a história junto com as canções tornou esse limite entre as linguagens ainda mais tênue, permitindo a incorporação de forma mais fluida. É inegável em todo esse processo a influência do teatro – desde 2012 que também trabalho como ator, isso influenciou a forma como vejo o palco e, consequentemente, a maneira como concebo o apresentar da música.

É possível a partir da proposta que “O Paquiderme” tem de contar uma história, sair um livro do disco? Ou uma peça de teatro?
Com o retorno de nossos shows queremos levar aos palcos não apenas uma experiência musical, mas algo que também carregue um aspecto cênico sobre a história que estamos contando. Não será uma peça, mas sim um show-cênico. Quanto ao livro, é nossa vontade produzir um material impresso que traga todo o trabalho presente no disco, das letras aos processos e subtextos. Acredito que a narrativa que trazemos com “O Paquiderme” tem elementos definidos, mas é abrangente o bastante para se extrair uma pluralidade de significados de seus símbolos – tenho medo de, ao transformar esta narrativa em uma peça ou uma ficção, algumas dessas interpretações se afunilassem. Mas a cabeça continua se movimentando e tenho cá trabalhado num livro doutras histórias que também merecem ser contadas.

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